Conselho Permanente da CNBB inicia 120ª reunião com reflexões sobre conjunturas social e eclesial e desafios da Igreja no Brasil

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) iniciou, nesta terça-feira, 20 de outubro, a 120ª reunião do Conselho Permanente, na sede da entidade, em Brasília (DF). O encontro reúne bispos presidentes dos regionais e das comissões da Conferência até quinta-feira, 22, para refletir sobre temas relacionados à missão evangelizadora da Igreja, à realidade social e política do país e às atividades pastorais. 

A programação teve início com a saudação do presidente da CNBB, cardeal Jaime Spengler, aos participantes. Em sua reflexão de abertura, o arcebispo destacou os desafios enfrentados pela sociedade e pela Igreja diante da polarização, da disseminação de informações falsas e do enfraquecimento do compromisso comunitário. 

O presidente da CNBB também ressaltou a importância da participação dos cidadãos na vida social e política, destacando a necessidade de informações confiáveis, espaços de diálogo e condições que favoreçam o exercício da cidadania. 

Cardeal Jaime Spengler. Foto: Luiz Lopes Jr.

O cardeal chamou a atenção para a realidade das pessoas em situação de pobreza, dos povos indígenas e daqueles que enfrentam dificuldades de acesso à educação de qualidade e a oportunidades de um futuro digno. Para ele, a atenção a essas realidades deve orientar os pensamentos, sentimentos e ações dos cristãos. 

O Núncio Apostólico no Brasil, dom Giambattista Diquattro, também dirigiu uma saudação aos participantes, transmitindo uma mensagem de proximidade e comunhão com a Igreja no país. 

Em sua manifestação, destacou a importância do discernimento pastoral e da escuta do Espírito Santo para reconhecer as necessidades do povo e responder a elas com sabedoria, coragem e caridade. 

Panorama do episcopado brasileiro

Durante a reunião, o secretário-geral da CNBB, dom Ricardo Hoepers, apresentou dados atualizados sobre o episcopado brasileiro. 

De acordo com as informações compartilhadas, o Brasil conta atualmente com 498 bispos, dos quais 325 são diocesanos, coadjutores e auxiliares, e 173 são eméritos. Dom Ricardo informou ainda que nove arquidioceses e dioceses estão com suas sedes vacantes. 

Análise de Conjuntura Social aborda cenário eleitoral brasileiro

Um dos destaques do primeiro dia foi a apresentação da Análise de Conjuntura Social, conduzida por dom Francisco Lima Soares, com reflexões sobre os resultados do primeiro turno das eleições de 2026 e os desafios políticos, econômicos e institucionais do Brasil. 

Foto: Paulo Augusto Cruz

O material foi elaborado pelo Grupo de Análise de Conjuntura Padre Thierry Linard e oferecido aos bispos como subsídio para a reflexão. O documento não representa a opinião institucional da CNBB. Seu objetivo é contribuir para a compreensão da realidade social brasileira, de modo que a ação evangelizadora considere as grandes questões da atualidade. 

A apresentação foi organizada em cinco dimensões consideradas fundamentais para compreender o momento vivido pelo país. 

A primeira abordou a disputa pela hegemonia internacional e seus reflexos na América Latina, especialmente diante da ascensão da China e das estratégias de influência dos Estados Unidos na região. A reflexão destacou questões relacionadas à soberania dos países latino-americanos e à posição do Brasil no cenário internacional. 

A segunda dimensão analisou os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais. Entre os fatores discutidos para compreender o cenário eleitoral estiveram a influência das cidades médias e pequenas, a organização política construída desde as eleições municipais de 2024, as estratégias de comunicação com os eleitores e o desejo de mudança manifestado por parte da população. 

Outro ponto abordado foi a situação do Supremo Tribunal Federal (STF). A análise apresentou questões relacionadas à conduta de ministros, aos mecanismos de responsabilização, às divergências internas e aos desafios institucionais da Corte. A reflexão destacou a importância de conciliar a independência do Poder Judiciário com a transparência e a responsabilidade institucional. 

Na dimensão econômica, foram apresentados indicadores de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), redução do desemprego e aumento dos rendimentos reais. Ao mesmo tempo, o estudo apontou desafios como a informalidade, a baixa produtividade e a distância entre os indicadores econômicos e a percepção da população sobre suas condições de vida. 

Por fim, a apresentação destacou sinais de esperança e perspectivas para o país, ressaltando que a construção de uma sociedade mais justa não depende exclusivamente dos resultados eleitorais, mas também da participação cidadã, da solidariedade e do fortalecimento das comunidades. 

A reflexão apontou, ainda, a necessidade de fortalecer a consciência crítica, o diálogo, a defesa da verdade e o acompanhamento das populações mais vulneráveis, a partir do compromisso de “construir pontes, promover encontros e cultivar a amizade social”. 

Análise de Conjuntura Eclesial

Dom Joel Portella. Crédito: Luiz Lopes. Jr.

A implementação das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) 2026-2032 foi tema de uma reflexão conduzida por dom Joel Portella, com o tema “Planejar a missão e discernir os caminhos: chances e desafios para a implementação das indicações das DGAE 2026-2032”, oferecida pelo Instituto Nacional de Pastoral Padre Alberto Antoniazzi (INAPAZ). 

Durante a apresentação, dom Joel destacou fatores que favorecem a implementação das Diretrizes: a legitimidade do documento, seu conteúdo, a conexão com a realidade e a abrangência das orientações. Por outro lado, identificou seis dimensões de dificuldades: específicas, locais, atuais, de origem, eclesiológicas e sinodais. 

Entre os principais desafios apontados estão a superação de uma pastoral de conservação, o clericalismo, a ausência de transparência, a cultura do silêncio e a necessidade de ampliar a participação de mulheres, jovens e pessoas com deficiência na vida eclesial. 

O bispo também chamou a atenção para os impactos da individualização, da fragmentação e da polarização na sociedade e na Igreja, além das dificuldades de conciliar a autonomia das realidades locais com as orientações comuns da CNBB. 

Na dimensão eclesiológica, dom Joel destacou a importância de fortalecer uma Igreja fundamentada no diálogo, no relacionamento e na comunhão, ressaltando o testemunho como elemento essencial para a evangelização no contexto atual. 

Por fim, apontou que a implementação das DGAE exige mais do que planejamentos e documentos. O processo demanda mudanças de mentalidade, processos e estruturas, além do fortalecimento da sinodalidade, da participação e do discernimento comunitário na missão evangelizadora da Igreja no Brasil. 

Pauta do Conselho Permanente

Foto: Paulo Augusto Cruz

A 120ª reunião do Conselho Permanente segue até quinta-feira, 22 de outubro, com debates e encaminhamentos relacionados à atuação da Conferência e aos desafios da evangelização no Brasil. 

Entre os assuntos previstos estão a acolhida dos estatutos da Cáritas Brasileira e da Sociedade Brasileira de Canonistas, além da apresentação de uma pesquisa nacional da Pastoral Carcerária sobre os impactos do encarceramento na vida dos familiares das pessoas privadas de liberdade. 

A programação contempla ainda reflexões sobre o Congresso Eucarístico, a Pesquisa Nacional da Juventude, as comemorações dos 75 anos da CNBB e os informes e comunicados dos regionais. 

Por Larissa Carvalho | Fotos: Paulo Augusto Cruz e Luiz Lopes Jr.
Fonte CNBB