Nem burocracia, nem algoritmo: a missão nasce do encontro

Casablanca (Chile) – Na tarde de 26 de setembro, no Santuário de Nossa Senhora Puríssima de Lo Vásquez, em Casablanca, no Simpósio Internacional Missiológico ocorreu mais uma etapa de sua programação. Coube a Dom Carlos Pellegrin Barrera, bispo emérito de Chillán, conduzir a quarta conferência do encontro, dedicada ao tema “Espiritualidade missionária: transformando as mudanças de paradigma”.

Dom Carlos convidou os presentes a mirar o futuro sem o fardo do medo ou da resignação perante as rápidas transformações do mundo contemporâneo. Inspirado pela confissão profética de Isaías, que reconhece a vocação gravada por Deus desde as entranhas maternas, o bispo fez questão de iluminar uma verdade essencial: a missão não é um projeto marginal nem um adendo tardio nas páginas das Escrituras. É, antes, o fio condutor de um desígnio incansável de amor que, desde a origem de tudo, se desdobra para abençoar a totalidade dos povos da Terra.

Ao conduzir essa reflexão, Dom Carlos demonstrou que, desde os primeiros relatos da Bíblia, a intenção divina nunca foi escolher um grupo privilegiado para deixar o resto de lado. O bispo pontuou que a bênção dada a Abraão já apontava para o bem de todas as famílias da Terra, e esse mesmo movimento atingiu o seu ponto mais alto com a vida de Jesus. Segundo o prelado, Cristo não ficou protegido nos lugares sagrados: ele atravessou preconceitos e fronteiras ao acolher estrangeiros, sentar-se à mesa com pessoas marginalizadas e valorizar quem a sociedade da época rejeitava. O mandato final de ir pelo mundo e fazer discípulos, reforçado nos Atos dos Apóstolos e na visão grandiosa do Apocalipse, onde povos de todas as línguas e raças celebram juntos, comprova, conforme sublinhou Dom Carlos, que a fé cristã nasceu para cruzar fronteiras, e não para se fechar em pequenos grupos fechados.

Dom Carlos Pellegrin Barrera, SVD, bispo emérito de Chillán, durante a condução da quarta conferência do Simpósio Internacional Missiológico no Santuário de Lo Vásquez, em Casablanca (Chile)
Dom Carlos Pellegrin Barrera, SVD, bispo emérito de Chillán, durante a condução da quarta conferência do Simpósio Internacional Missiológico no Santuário de Lo Vásquez, em Casablanca (Chile)

Rezar para sair de si e tocar a realidade

Ao explicar o que significa ter uma espiritualidade missionária hoje, Dom Carlos enfatizou que a vida de oração não tem nada a ver com aparências ou rituais vazios. A verdadeira fé não tranca as pessoas dentro de si mesmas; ela funciona como um impulso que liberta do egoísmo e da preguiça, renovando a alegria e a coragem de servir. Para o bispo, santidade e serviço caminham de mãos dadas, pois quem reza ganha um olhar mais sensível para as dores do próximo e compreende que a força da missão nasce da amizade com Deus, e não apenas de projetos administrativos bem-organizados.

Conduzindo essa reflexão histórica e eclesial, o bispo recordou que essa maneira viva de enxergar a fé foi confirmada pelos grandes documentos da Igreja nas últimas décadas. Dom Carlos percorreu esse itinerário desde o Concílio Vaticano II, com o decreto sobre a ação missionária, passando pelo incentivo de Paulo VI para que a evangelização nascesse de um amor sincero pelas pessoas, até o apelo vigoroso de João Paulo II nos novos ambientes da cultura moderna, mostrando que a mensagem sempre foi clara: o amor à Igreja sustenta o entusiasmo de anunciar a Boa-Nova. Ao avançar em sua exposição, o prelado destacou que, mais recentemente, o Papa Francisco reforçou na Evangelii Gaudium que ninguém evangeliza sem vida interior, pedindo cristãos que orem e trabalhem ao mesmo tempo, apaixonados por Jesus e comprometidos com a vida do povo simples, sem desanimar quando os resultados imediatos não aparecem.

Entender a juventude e encarar a crise como oportunidade

Para mostrar como os costumes mudam com rapidez, Dom Carlos citou expressões correntes usadas pelos jovens chilenos nas redes sociais, como estar “relaxado” (chill), “acumulando prestígio” (farmeando aura), vivendo “o melhor momento” (prime) ou celebrando algo “muito legal” (bacán), lembrando que quem deseja comunicar uma mensagem de esperança precisa, antes de tudo, saber ouvir e compreender a linguagem de quem está ao redor. O Evangelho permanece o mesmo, mas a maneira de dialogar com as pessoas exige renovação constante.

O bispo reconheceu com franqueza que a Igreja enfrenta tempos exigentes: igrejas com menor presença de fiéis, queda no número de vocações e uma sensação de distanciamento, muitas vezes alimentada por falhas históricas e pela impressão de que a liderança religiosa vive afastada do dia a dia da comunidade. No entanto, Dom Carlos lembrou que a palavra crise traz dentro de si a ideia de perigo, mas também de oportunidade de renascimento. O grande desafio é não cair em armadilhas: nem tentar quebrar tudo às pressas sem prudência, nem se fechar pelo medo da novidade. O caminho seguro está no diálogo aberto com as diversas realidades culturais e com quem pensa diferente.

Dom Carlos Pellegrin Barrera, bispo emérito de Chillán, ao lado da Irmã Regina da Costa Pedro, diretora nacional das POM Brasil, durante o Simpósio Internacional Missiológico no Santuário de Nossa Senhora Puríssima de Lo Vásquez, em Casablanca
Dom Carlos Pellegrin Barrera, bispo emérito de Chillán, ao lado da Irmã Regina da Costa Pedro, diretora nacional das POM Brasil, durante o Simpósio Internacional Missiológico no Santuário de Nossa Senhora Puríssima de Lo Vásquez, em Casablanca

O ser humano no centro da revolução tecnológica

A reflexão ganhou ainda mais força ao abordar a era da tecnologia e a encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, dedicada à proteção da dignidade humana no tempo da inteligência artificial. Dom Carlos pontuou que os recursos digitais trazem vantagens indiscutíveis para acelerar a comunicação e facilitar o aprendizado pastoral. O perigo real surge quando a pressa das telas apaga o silêncio, a calma e a capacidade de pensar com profundidade, comprometendo a liberdade interior das pessoas.

Citando o próprio texto do Papa, o bispo chamou atenção para a diferença essencial entre a frieza dos sistemas e o mistério da vida humana: enquanto uma máquina enxerga o erro apenas como uma falha a ser consertada, na vida de uma pessoa o erro pode ser o começo de uma grande virada e de um caminho de maturidade. O futuro de ninguém pode ser reduzido a um cálculo probabilístico. Por isso, a Igreja tem a nobre tarefa de educar as novas gerações para que a tecnologia seja orientada pela responsabilidade ética, garantindo que os avanços sirvam sempre à paz, à justiça e ao cuidado com o próximo.

 

Uma comunidade de portas abertas e a serviço de todos

Na conclusão de sua exposição, Dom Carlos Pellegrin resgatou a visão de uma Igreja peregrina, que caminha lado a lado com a humanidade em vez de agir como dona da verdade. Alertou com firmeza para o risco de transformar a comunidade de fé em mera repartição burocrática ou numa espécie de “sala de espera para o céu”, esquecendo as lutas e esperanças do presente. A missão cristã não serve para atrair pessoas para dentro de templos em busca de autopromoção, mas para apontar para Jesus e convidar todos a seguir os Seus passos. Conforme destacou o bispo: “Responder aos desafios que a nossa época nos apresenta e viver uma autêntica espiritualidade missionária implica deixar-se tocar, surpreender e interpelar pela ação de Deus na história. Os ‘sinais dos tempos’ são, em primeiro lugar, os sinais de Deus, agindo e transformando tudo de acordo com o seu plano divino. Sentir-nos em suas mãos de Pai nos liberta e nos presenteia com a confiança de saber que somos apenas seus colaboradores no trabalho de sua Vinha,” concluiu.

Participantes do Simpósio Internacional Missiológico «Igrejas da América, em missão nas fronteiras», reunidos no Centro de Espiritualidade do Santuário de Nossa Senhora Puríssima de Lo Vásquez, em Casablanca
Participantes do Simpósio Internacional Missiológico “Igrejas da América, em missão nas fronteiras”, reunidos no Centro de Espiritualidade do Santuário de Nossa Senhora Puríssima de Lo Vásquez, em Casablanca

Para aprofundar esse discernimento comunitário no método da Conversa no Espírito, os grupos debruçaram-se sobre o tema central “A espiritualidade missionária diante dos novos desafios”, partindo de duas questões orientadoras:

  1. Quais atitudes e práticas espirituais são indispensáveis para sustentar o testemunho missionário nos contextos atuais de mudança e incerteza?
  2. Como podemos integrar a oração, o anúncio, o diálogo e o compromisso com os pobres e excluídos em uma espiritualidade missionária encarnada na vida cotidiana?

_________

Texto: Osnilda Lima
Fotos: Wesley Tavares Gomes

Fonte POM