20 representantes da Igreja no Brasil participam de Simpósio Internacional Missiológico de 24 e 27 de setembro no Chile

Onde o vento sussurra pelas colinas chilenas de Casablanca, o sagrado faz pouso e fecunda a terra junto ao Santuário da Virgem Puríssima de Lo Vásquez. É no silêncio do Centro de Espiritualidade vizinho à igreja que o pulsar missionário das Américas se conecta e vibra no mesmo tom. Um espaço onde distâncias se desfazem, vozes plurais se reconhecem e passos múltiplos se entrelaçam na busca por descortinar novos caminhos para a missão nas fronteiras.

É nessa atmosfera de comunhão que, entre os dias 24 e 27 de setembro de 2026, a casa de formação acolheu 65 delegados de 19 países. Do Brasil, participou uma delegação de 20 pessoas. Convocados pelo Simpósio Internacional Missiológico sob a provocação do tema “Igrejas da América, em missão nas fronteiras”, homens e mulheres debruçam-se sobre uma reflexão que transcende fronteiras e mapas geográficos.

O propósito partilhado é fazer da escuta sensível, da mesa partilhada e da rica diversidade cultural o ponto de partida para um renovado e fecundo caminho evangelizador rumo ao 7º Congresso Missionário Americano (CAM 7), previsto para o período de 14 a 18 de novembro de 2029, na arquidiocese de Curitiba (PR).

Testemunho contra o espetáculo

Guiado pela liturgia da Palavra na homilia de abertura, o arcebispo metropolitano de Curitiba e presidente do CAM 7, dom José Antônio Peruzzo, teceu uma distinção profunda entre curiosidade e seguimento. Evocou a figura de Herodes, que buscava ver e ouvir Jesus sob o filtro da admiração superficial, em oposição aos apóstolos, cuja vida era testemunho encarnado ao lado do Mestre, junto com o povo. Ao tocar nessa fratura, dom Peruzzo alertou para o perigo de uma fé sem encontro real, facilmente desfigurada em produto de consumo diante da espetacularização, em especial no mundo digital.

“Ser missionário vai muito além de fazer marketing ou explicar Jesus com palavras; a missão pede sólidos princípios teológicos e coerência de vida. Assim, especialmente diante de uma cultura contemporânea e digital inclinada à espetacularização, a autêntica evangelização só se concretiza quando as ações e o próprio testemunho de vida falam mais alto do que os discursos,” alertou o bispo.

Centralidade em Cristo e sinodalidade

Ao contextualizar a preparação das Igrejas do continente, Dom Maurício da Silva Jardim, bispo de Rondonópolis-Guiratinga (MT) e presidente da Comissão Episcopal para a Ação Missionária da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, destacou a virada reflexiva do CAM 7, que coloca o anúncio de Cristo e a eclesiologia do Povo de Deus no coração da caminhada sinodal.

“O CAM 6 foi mais pneumatológico; nós falámos muito do Espírito Santo em Porto Rico. Agora o CAM 7 propõe-se ser mais cristológico, colocando o anúncio e o testemunho de Jesus Cristo no seu tema central, e coloca como sujeito as igrejas locais — aquela eclesiologia do Vaticano II: a Igreja como Povo de Deus. Em tempos de sinodalidade, de comunhão e de participação, o CAM 7 já começou e começa também aqui entre nós”, reforçou dom Maurício.

O coração como verdadeiro território da missão

Anfitrião do simpósio, dom Jorge Patricio Vega Velasco, bispo de Valparaíso e presidente das Pontifícias Obras Missionárias (POM) no Chile, resgatou a sua experiência pastoral em Angola e a memória histórica das assembleias continentais, exortando os delegados a superarem o olhar restrito às próprias fronteiras paroquiais.

“Muitas vezes focamo-nos tanto na nossa pequena escala que não abrimos os olhos para enxergar aquelas pessoas que ainda não têm Jesus Cristo no coração. Como missionários, devemos trabalhar para levar Jesus ao coração de cada pessoa; não se trata tanto de ocupar território, mas de alcançar o coração de cada um, da humanidade inteira”, convidou o bispo.

Evangelizadores que aproximam

A diretora nacional das POM no Brasil, irmã Regina da Costa Pedro, frisou que a missão continental não é um evento isolado, mas um itinerário contínuo que interpela a identidade de cada batizado e exige coerência no anúncio. “Não somos donos da mensagem que proclamamos. A evangelização não é possível sem sólidos princípios teológicos, mas é de todo impossível se não tiver como horizonte aproximar Jesus do Seu povo e o povo do Seu Salvador. Precisamos ser evangelizadores que encontram Jesus e levam os outros a encontrá-Lo, como discípulos missionários juntos na missão”, convocou irmã Regina.

Construção coletiva e articulação

Trazendo o olhar da articulação cotidiana, Liliam Habibe de Andrade, secretária das POM no Brasil e articuladora das Comissões de Trabalho do CAM 7, evidenciou a sinergia e a organicidade necessárias para tecer uma caminhada que envolve todo o continente americano.

“O CAM 7 não está sendo preparado por uma única equipe ou por um único país. Ele está sendo construído por muitas mãos, com diferentes experiências, culturas e realidades missionárias. Estar aqui no Chile torna isso ainda mais concreto. O congresso acontece cada vez que nos reunimos, escutamos uns aos outros, partilhamos experiências e assumimos juntos a responsabilidade desse caminho”, enfatizou Liliam.

A missão como processo contínuo

Representando Porto Rico, país que sediou o CAM 6, Natalia Del Valle Rosario partilhou a memória viva do caminho percorrido e ressaltou que a vocação missionária fecunda a história quando é acolhida tanto nos grandes fóruns quanto no cotidiano das famílias.

“Trata-se de um processo, não de um evento pontual que acontece, passa e pronto. É um caminho que vamos realizando dia a dia. Que este simpósio e o próximo não sejam encarados como marcos isolados, mas trabalhados como um processo contínuo, colocando as qualidades de cada país a serviço da comunhão com os demais”, lembrou Natalia.

Por Osnilda Lima
Fonte CNBB